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Cultura, Pintura

Até sempre António Inverno

23 Jul , 2016  

“No Alentejo ninguém me compra. Se estivesse em Lisboa não venderia muito, mas sempre venderia. Mas de vez em quando vêm pessoas, principalmente da capital, e também do Algarve, para comprar alguns quadros meus. Serigrafias não, que já não as faço”. António Inverno trabalha ainda com duas galerias de arte, uma em Lisboa e outra no Algarve, onde expõe duas vezes por ano, uma forma de promover mais algumas vendas. Mas tirando “quatro ou cinco nomes”, como Júlio Pomar, Paula Rego ou Cabrita Reis, poucos são os que conseguem viver atualmente da arte, assegura o pintor, lembrando que, à semelhança desses nomes mais sonantes, também ele ganhou “muito dinheiro” ao longo da sua carreira. A diferença é que “a maior parte foi dada, oferecida” a quem precisava. Famílias de presos políticos. Filhos de prostitutas do Bairro Alto. Jovens bolseiros originários de África. E a tantos outos. “Dediquei toda a minha vida ao próximo, tem a ver com os meus princípios. Eu também fui ajudado por muita gente, pessoas que até não me conheciam de lado nenhum”, conclui.
Este é um pequeno excerto de uma entrevista dada por António Inverno ao Diário do Alentejo.


Pintor e especialista em serigrafia, Inverno foi colaborador da revista Seara Nova, e trabalhou com artistas como Júlio Pomar, Marcelino Vespeira, António Charrua, Eduardo Nery, Maria Keil, Francisco Relógio, Jorge Vieira, Espiga Pinto, Paula Rego, Manuel Cargaleiro, Artur Bual e Mário Cesariny, entre outros, realizando várias serigrafias dos diferentes artistas. Fez parte, tal como Almada Negreiros, dos criadores escolhidos para a decoração de interiores do edifício-sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

António Inverno - 2010 100x100

António Inverno – 2010 100×100

O artista plástico, que nos deixou cedo demais, na passada quinta-feira, fica presente em museus e coleções no País e no estrangeiro. Era membro efectivo da Academia Nacional de Belas Artes e foi distinguido, em 1995, com o Prémio Nacional de Pintura da Academia Nacional de Belas Artes. Foi ordenado Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Uma pessoa notável dos nossos tempos, um coração generoso, que nem sempre foi reconhecido da maneira que merecia. Natural de Monsaraz, viveu alguns anos em Lisboa onde desenvolveu parte do seu percurso, com uma forte participação no teatro. Regressou ao Alentejo (Serpa) para alcançar uma tranquilidade, mas na realidade viveu uma desilusão. Mudou-se para Beja, onde deu aulas de Expressão Plástica no Politécnico, e teve um atelier perto do largo do Tribunal.

No ano passado, no âmbito das comemorações dos 20 anos do Museu Jorge Vieira, expôs nesse mesmo espaço, com o nome “Não morro nem que me matem!” A sugestão partiu da artista plástica Noémia Cruz, coordenadora da exposição e viúva de Jorge Vieira. Esta expressão surgiu a propósito de uma notícia falsa, da morte anunciada do pintor, por um jornal nacional.

António Inverno - 2010 34,5x45

 

Tive o privilégio de ter uma aula com este senhor, que me deixou fascinada, tal era o seu relevo na arte contemporânea nacional. Espero que agora após a sua morte, as suas obras tenham o espaço e distinção que merecem. Nunca me esquecerei da generosidade, o espírito livre e talento ímpar de António Inverno. Até Sempre!

Fonte: Diário do Alentejo
Fotografia: José Ferrolho

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