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Vida

Natália Correia e 8 de Março | ou uma Mulher que simboliza este dia

8 Mar , 2017  

“Acho que a missão da mulher é assombrar, espantar. Se a mulher não espanta… De resto, não é só a mulher, todos os seres humanos têm que deslumbrar os seus semelhantes para serem um acontecimento. Temos que ser um acontecimento uns para os outros. Então a pessoa tem que fazer o possível para deslumbrar o seu semelhante, para que a vida seja um motivo de deslumbramento. Se chama a isso sedução, cumpri aquilo que me era forçoso fazer.”

“Os meus heróis na vida real são os que desafiam a lei em nome de um ideal.”

“Só aceito a disciplina quando me demonstram que ela é uma necessidade ética ou criadora. Quando não mo demonstram, não aceito.”

 

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A partir destas palavras, neste dia em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, trago-vos alguém que admiro imenso, um símbolo maior do feminismo, uma enorme pessoa, que por acaso (ou não) nasceu mulher.
Feminista assumida, Natália Correia foi uma escritora tendencialmente poetisa, reconhecida nacional e internacionalmente, uma personalidade incontornável da história da Cultura Portuguesa. Enquanto mulher fez muito pelo seu género. Pela liberdade em geral, pela das mulheres em particular. Sem dúvida alguém de quem nos devemos orgulhar enquanto portugueses.

Nascida em Ponta Delgada, começou a sua vida profissional como Jornalista na Rádio Clube Português, e cedo evidenciou a sua personalidade forte, irreverente, provocadora, apaixonada e lutadora.

Nas décadas de 50 e 60, a sua casa dava lugar a um dos espaço mais concorridos da capital, onde se reuniam as grandes figuras da cultura portuguesa da época. Durante os anos 50, o quinto andar por cima da pastelaria Smart em Lisboa, era um dos locais conhecidos pela resistência que oferecia ao regime de Salazar. Os encontros focavam-se a criticar e combater o fascismo. Nesse cenário, a escritora vê alguns dos seus livros apreendidos pela PIDE,  não só pela sua posição anti-salazarista, mas também pelo próprio conteúdo dos referidos livros – como é do conhecimento geral, Natália era audaz e dizia exactamente aquilo que pensava.

Em 1971, funda juntamente com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, O Botequim, que viria a ser um dos centros de conspiração em prol da liberdade, era a animada tertúlia de Natália. Lá discutia-se política, arte, filosofia, literatura, um Bar, onde muito acontecia.

 

Possuía um especial talento para a oratória e uma grande coragem combativa, que a levaram a fazer parte da oposição ao Estado Novo. Fez parte do MUD (Movimento de Unidade Democrática, 1945), no apoio às candidaturas para a Presidência da República do general Norton de Matos (1949) e de Humberto Delgado (1958) e na CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, 1969). Não escapou a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, considerada ofensiva dos costumes, (1966) e processada pela responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas das chamadas três Marias, outras mulheres de referência nacional, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta.

Foi coordenadora da Editora Arcádia, uma das grandes editoras portuguesas do seu tempo.

 

A intervenção política pública levou-a ao parlamento, para onde foi eleita em 1980nas listas do PPD (Partido Popular Democrático), passando a independente.

Foi autora de polémicas intervenções parlamentares, das quais ficou célebre, num debate sobre o aborto, em 1982, a réplica satírica que fez a um deputado do CDS sobre a fertilidade do mesmo.

Foi amiga de António Sérgio (esteve associada ao Movimento da Filosofia Portuguesa), David Mourão-Ferreira (“a irmã que nunca tive”), José-Augusto França (“a mais linda mulher de Lisboa”), Luiz Pacheco (“esta hierofântide do século XX”), Almada Negreiros, Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança, Mário Cesariny (“era muito mais linda que a mais bela estátua feminina do Miguel Ângelo”), Ary dos Santos (“beleza sem costura”), Amália Rodrigues, Fernando Dacosta, entre muitos outros. Foi uma entusiasmada e grande impulsionadora pelo aparecimento do espectáculo de café-concerto em Portugal. Na sua casa, foi anfitriã de escritores famosos como Henry Miller, Graham Greene ou Ionesco.

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Natália nunca quis ter filhos, por considerar que não conseguia transmitir o mesmo nível de carinho e de educação que a sua mãe lhe tinha proporcionado. É à sua mãe que dedica grande parte da sua obra, pela admiração que tinha por ela, e também ela ser uma fonte de inspiração.
Como mulher de grandes paixões que era, casou quatro vezes. Após dois primeiros curtos casamentos, casou em Lisboa a 31 de Julho de 1953 com Alfredo Luís Machado (1904-1989), a sua grande paixão, muito mais velho do que ela e viúvo, casamento este que durou até à morte deste. (São já notáveis as cartas de amor da jovem Natália para Alfredo Luís Machado.) Em 1990, tinha Natália 67 anos de idade, casou pela última vez, com o seu colaborador e amigo Dórdio Guimarães, que tinha pela escritora um enorme amor e veneração.

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A 13 de Julho de 1981 foi feita Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. Natália Correia recebeu, em 1991, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Sonetos Românticos. No mesmo ano a 26 de Novembro foi feita Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.

Faleceu de ataque cardíaco em 1993, uma noite após regressar do Botequim. E a cultura portuguesa ficou com uma lacuna, cujo preenchimento será impossível, diria…

Dedico a minha homenagem neste Dia da Mulher, ao excepcional exemplo que é, porque no feminino desafiou o convencional, defendeu as causas em que acreditou. Apesar de tudo, não hesitou em divorciar-se, numa sociedade conservadora e preconceituosa. Provocou o Regime, “a moral e os bons costumes” e acima de tudo acreditou em si própria. Foi sempre movida pela coragem, pela independência, sonhou com um país livre, lutou pelos direitos humanos e das mulheres, e fez tanto por todas nós.

Que todos os dias, se façam mais mulheres assim.

Fonte: Wikipédia, BPARPD

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